O Ovo-Templo

O ovo-templo nasceu de um sentimento individual privado, mas projeta essa experiência coletiva e carrega dentro de si um renascimento, uma possibilidade, uma nova identidade.

É uma metáfora para a vida, um conjunto de idéias a fim de expandir e enriquecer a experiência de vida, mudando o significado associado a ela. O ovo-templo é o umbral que deve ser atravessado para uma outra dimensão.E estar diante do ovo é uma prova de contemplação da solidão. O “Umbral” é a contemplação poética da imensidão íntima de que fala Bachelard, onde se dá o verdadeiro significado a certas expressões referentes ao mundo que sentimos.

O pó de mármore é uma alusão a um jardim zen-budista em seu vasto e penetrante silêncio, a fim de provocar uma breve meditação. Graças à combinação, adesão, formação e manifestação de elementos materiais, foi possível criar o “Ovo-Templo”. O ovo é sagrado pela tradição de sua natureza dicotômica de simplicidade e complexidade. A tendência à simplicidade está sempre em ação, ela cria a interação mais unificada entre as forças do trabalho, e uma superfície de pó branco cria um mínimo de tensão a fim de transitar num ambiente de silêncio e quietude. O pó parece ter um poder de harmonização e de ponte que une o interior e o exterior, partindo do individual para o coletivo. Pareceu-me adequado dispor o pó na forma de um grande ovo, um “Ovo-Templo”, um “Umbral” que despertasse a sensação de poder ultrapassá-lo como as pinturas ilusionistas do Trompe l’oeil, mas que não se impõe por sua majestade, evocando as questões ligadas à percepção e ao instante com que Ligia Clark se preocupava, esta consciência do centro interior, como uma “identificação projetiva”, uma espécie de fusão que envolve a mistura e emaranhamento de sujeito e objeto, dos mundos interno e externo; um desfazer de fronteiras.