Sobre a temporalidade da vida

Descobri que nos meus trabalhos e pesquisas artísticas sempre investiguei o corpo num viés do conhecer a si mesmo, voltado para uma preocupação com sua aparência, suas mudanças, transformações, ou o que ele precisa, quer e sente; suas funções e necessidades, o que ele percebe e suporta passivamente, o que representa e o que o protege.
Era como uma busca de consciência da existência. Mas hoje percebo, sinto que quando desenho corpos, normalmente são de mulheres magras e vaidosas, estou discutindo a temporalidade da vida e conseqüentemente o desgaste e o fim da mesma.
Assim, me identifico mais com Damien Hirst quando afirma:
Minha busca é pela representação da morte cada vez mais fria e asséptica, o que reflete a sociedade contemporânea. Mas, embora a morte esteja sempre presente, está ligada a uma obsessão pela vida. Só falo da morte porque tenho uma paixão incrível pela vida [...]” (Folha de São Paulo, 2004).

The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living


Self de Mark Quinn : uma escultura em que se auto-retrata em seu próprio sangue numa câmara refrigerada especialmente desenhada para mantê-lo congelado por criogênio (uma substância que produz temperaturas muito baixas) articulando no frágil balanço que existe entre a vida e a morte.
Frozen Garden, são literalmente naturezas-mortas (outra vez uma referência do estilo “Vanitas”) suas flores não irão crescer nem morrer. Elas estão simplesmente paradas no tempo, estão congeladas fisicamente.

Bill Viola foca na relação da vida individual interna e a experiência do corpo, as experiências humanas universais como o nascimento, a morte, o despertar da consciência, renascimento e encontra as suas raízes tanto nas artes orientais como ocidentais, além de se inspirar em múltiplas tradições espirituais, desde o budismo zen, ao sufismo islâmico e ao misticismo cristão.
Em The Passing, uma instalação com três momentos: o do nascimento de uma criança, uma pessoa boiando na água e sua mãe em coma morrendo. Ele mostra o momento na água como um sonho suspenso que representa o pensamento e a vida humana ativa entre o espaço que existe entre a vida e a morte. Aqui não é a jornada da vida que é importante e sim o começo e o fim.
Mas gostaria de ainda fazer uma última consideração a respeito da teoria de um cientista considerado gênio do século XX, seu nome é Ray Kurzweil.
Ele foi responsável pelo primeiro sintetizador musical capaz de recriar o som de instrumentos musicais, pelo invento do scanner e seu nome está diretamente relacionado ao advento da inteligência artificial. Seu pai teve uma morte prematura de infarto aos 58 anos e ele próprio sofria de diabetes tipo 2 com 35 anos. Sua dor e medo, provavelmente, o motivou a pesquisar sobre como a tecnologia poderia ajudar nas doenças do corpo.
Colaborador do livro FANTASTIC VOYAGE: Live Long Enough To Live Forever, sua teoria é que fazer entrar nanorobôs do tamanho de um glóbulo vermelho no corpo para melhorar seu funcionamento, retardar sensivelmente o envelhecimento e até mesmo o inverter. Ele também declara como agir desde hoje seguindo os conselhos da ponte a fim de se dar melhores chances de viver mais tempo e conseguir atingir a ponte dois onde a biotecnologia será suficientemente desenvolvida para preparar a chegada futura (nos próximos 20 anos) da ponte três onde as nanotecnologias de curar melhor do interior e então, viver mais longamente, viver mesmo, eternamente.
Será que estamos realmente preparados para viver em um mundo sem mortes? E todos os riscos que este tipo de transgressão acarretará para os valores humanos? Mesmo com a impossibilidade física da morte, nós temos apenas o que sempre tivemos: escolher a maneira como vamos viver a vida até a chegada do dia de nossa morte.